Dra. Lúcia Alcântara - Meio Século de Ciência e Cuidado ao Próximo
Anfitriã generosa, a Dra. Lúcia Maria Alcântara de Albuquerque nos recebeu com sua elegância característica na Fundação Waldemar Alcântara para uma conversa emocionante. Membro da Academia Cearense de Medicina, agraciada com o Troféu Sereia de Ouro e com o Prêmio RioMar Mulher, e homenageada no Outubro Médico, ela carrega no sobrenome a tradição e, nos olhos, a serenidade de quem dedicou meio século ao cuidado do próximo.
Filha do icônico Dr. José Waldemar Alcântara, ela seguiu a sensibilidade familiar. Graduada pela UFC em 1971, especializou-se no Instituto Nacional do Câncer (INCA), no Rio de Janeiro. Ao retornar em 1975, consolidou-se como a primeira mulher a atuar na radioterapia cearense, exercendo a especialidade por mais de 45 anos com extrema abnegação e competência.
Hoje, afastada dos consultórios, mantém viva sua maior vocação: o acolhimento humano. Como presidente da Rede Feminina de Combate ao Câncer do ICC, lidera as voluntárias “mulheres de rosa”, coordenando o amparo a pacientes carentes e a manutenção da Casa Vida. Nesta entrevista exclusiva, ela compartilha memórias, reflete sobre os avanços da ciência e deixa uma bússola ética para as novas gerações.
Revista Saúde Ceará (RSC): Olhando para sua caminhada de quase meio século na medicina, qual foi sua maior realização na consolidação de um atendimento humanizado na oncologia?
Dra. Lúcia Alcântara: Olhar para trás me faz ver o quan-to as coisas melhoraram, principalmente no respeito ao paciente. Quando comecei, o processo era difícil. O paciente saía do ambulatório com o pedido de radioterapia e dependia de peritos públicos, que muitas vezes não eram oncologistas e não entendiam a urgência da guia. Era uma grande luta.
Ver essa realidade mudar e acompanhar o surgimento de fluxos em que o paciente passou a ser avaliado por especialistas que compreendem a indicação oncológica foi uma das grandes vitórias da nossa época. Minha maior realização sempre foi tra-balhar para que o paciente tivesse o tratamento correto na hora certa, desatando esses nós com persistência e respeito à dignidade humana.
RSC: Como abraçar a modernidade dos novos equipamentos e tecnologias sem perder a essência da empatia e do acolhimento ao paciente?
Dra. Lúcia Alcântara: Quando retornei do Rio, em 1975, nossa realidade era modesta. Operávamos com uma única bomba de cobalto, que era o que existia de mais moderno. Meus grandes avalistas para essa compra foram meu pai, professor Waldemar Alcântara, e o professor Haroldo Juaçaba. Era tudo muito simples: uma sala para a máquina e outra para a recepção.
De lá para cá, a tecnologia deu saltos impressionantes. Antigamente, um tratamento durava semanas; hoje, com o planejamento computadorizado da radioterapia e a alta precisão que temos no Ceará, a radiação é direcionada ao tumor, com proteção das estruturas e órgãos vizinhos, permitindo alcançar o mesmo resultado em poucas sessões.
As máquinas calculam doses com perfeição, mas sozinhas não fazem nada. O segredo sempre foi o olhar do médico.
A tecnologia das máquinas de tratamento deve servir para encurtar o período de tratamento, mas o paciente continua sendo alguém que busca conforto. Os jovens profissionais devem aliar a precisão da máquina ao calor do acolhimento.
RSC: Como a senhora enxerga o seu papel na formação de novos médicos, transmitindo a eles que a sensibilidade humana é tão importante quanto a técnica?
Dra. Lúcia Alcântara: Ver o crescimento da oncologia e da radioterapia no nosso Estado é um orgulho imenso. Dediquei grande parte da vida a preparar os recém-formados. O que sempre tentei passar aos meus residentes é que a técnica se aprende nos livros, mas a sensibilidade vem da alma. O estudante de medicina precisa querer de verdade estar ali, e ter dedicação.
O papel do orientador é ensinar o novo médico a acolher todas as fases do paciente com paciência. Receber o diagnóstico de câncer não é fácil; a pessoa passa por momentos difíceis até aceitar o tratamento, que é um processo duro. É preciso focar na doença, mas sem esquecer que ali na sua frente existe um ser humano buscando um parecer seguro e um acolhimento sincero.
RSC: De que forma o legado e os fortes valores de sua família influenciaram sua escolha pela dedicação ao cuidado com o próximo?
Dra. Lúcia Alcântara: Fui criada em um ambiente médico e de intensa vocação pública. Meu pai, Dr. Waldemar Alcântara, clinicou no interior e logo veio para Fortaleza, ingressando na saúde pública e na política, sem nunca perder o vínculo com a assistência social. Meu irmão, Lúcio Alcântara, seguiu essa trilha: médico, participou da instalação do Hospital São José, do qual foi primeiro diretor, e foi secretário de Saúde do Estado, contribuindo para a criação do HEMOCE. Depois, dedicou-se à vida pública — embora minha mãe sempre fizesse versos carinhosos pedindo para ele voltar para a medicina (risos).
Além deles, a convivência com uma prima que veio do Amazonas para estudar aqui me contagiou. Hoje a família tem muitos médicos talentosos, como a pneumologista Márcia Alcântara, o filho dela, Marcelo (criador do capacete Elmo), Lúcio Neto, dentre outros. Esse DNA voltado ao bem-estar social moldou minha visão de que a medicina é um sacerdócio ético focado no alívio da dor do outro.
RSC: Como sua liderança e atuação no voluntariado podem servir de bússola para orientar as jovens médicas na busca por equilíbrio no cotidiano atual?
Dra. Lúcia Alcântara: É maravilhoso ver tantas mulheres ocupando espaço na oncologia atual. A mensagem que deixo para elas é que a maior força de uma médica está na verdade e no desapego ao ego. O mercado é competitivo, mas o que acalma e cura é a segurança da verdade dita com doçura. Além disso, o trabalho não termina no consultório.
Afastei-me da rotina da radioterapia por questões de saúde, mas sigo na presidência da Rede Feminina de Combate ao Câncer. Contamos com o trabalho das voluntárias, as “mulheres de rosa”, no acolhimento de pacientes. Nosso maior orgulho é a Casa Vida, que abriga pessoas do interior, evitando que abandonem o tratamento por falta de recursos em Fortaleza. Oferecemos hospedagem e refeições gratuitas. Essa atuação social nos dá uma dimensão real da vida, onde aprendemos a ter humildade e a entender que o cuidado vai muito além do remédio.
RSC: Qual é o principal pilar que a senhora considera indispensável para enfrentar os desafios modernos com equilíbrio e longevidade?
Dra. Lúcia Alcântara: A verdade e a empatia. Quando um paciente nos procura, ele busca uma direção. Não podemos prometer milagres em casos complexos, mas precisamos dar o chão firme da realidade e da esperança. Esse é o pilar indispensável da medicina. E para a vida, o segredo é saber lidar com o retorno humano.
Hoje, quando ando pelas ruas ou pela Fundação, é comum encontrar familiares de antigos pacientes que vêm me abraçar, agradecendo pelo tratamento de seus entes queridos. Às vezes a pessoa partiu, às vezes ficou boa, mas o respeito permanece intacto. Esse encontro com a gratidão me traz paz, satisfação e a certeza de que faria tudo exatamente igual. A medicina me deu a chance de enxergar e aliviar a dor do outro, e esse é o melhor estilo de vida que alguém pode escolher.



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