Ciência e fé não são inimigas!

A Louis Pasteur é atribuída a frase “Um pouco de ciência nos afasta de Deus. Muito, nos aproxima”. Mas afinal, o que seria a ciência? Ou melhor, o que seria a Fé? Apesar de possuírem abordagens distintas, a ciência se baseia na observação e experimentação para explicar o “como” do mundo, enquanto a fé lida com crenças, valores e o “porquê” da existência, respondendo a questões que a ciência não alcança. Essa aparente dualidade, porém, não precisa ser vista como conflito. Para Pasteur, um dos pais da microbiologia moderna, o aprofundamento científico não eliminava a dimensão espiritual, mas ampliava a compreensão humana sobre a realidade. Portanto, fé e razão configuram sistemas distintos, porém sinérgicos, atuam não só na construção do conhecimento, mas no processo de cura.

 

Quando trazemos essa discussão para a medicina, tudo fica mais fascinante. Afinal, não é raro vermos, na prática clínica, situações em que fé e ciência atuam quase como duas forças que se somam. A neurociência já mostrou que crenças profundas, esperança e sentimentos de propósito ativam circuitos ligados ao bem-estar, modulam áreas cerebrais relacionadas à dor e ao medo, e até influenciam a liberação de neurotransmissores capazes de reduzir inflamação e melhorar a resposta imunológica. Não se trata de milagres contra a lógica científica, mas de compreender que o cérebro humano responde intensamente a significados, expectativas e confiança. E foi exatamente isso que observei em uma paciente real, cuja jornada une de forma poderosa a ciência médica e a fé.

 

A paciente M.A.A.A., uma mulher idosa, compareceu ao consultório carregando o peso de um déficit neurológico de instalação súbita. O evento sugeria, de imediato, a temida sombra de uma possível recidiva tumoral. No momento da avaliação, ela relatava sintomas incapacitantes que interferiam dolorosamente em suas atividades diárias. Ao seu lado, o marido, visivelmente abalado e ciente da gravidade do histórico, demonstrava profunda apreensão.

 

A história clínica de M.A.A.A. era um livro de batalhas vencidas. Nascida prematura, enfrentou complicações neonatais e, na adolescência, problemas ortopédicos que exigiram longo acompanhamento. Na vida adulta, seu estado geral piorou progressivamente, culminando em uma perda de peso extrema, chegando a pesar apenas 40 kg, e desenvolvendo problemas renais importantes.

 

Aos 31 anos, a vida de M.A.A.A. foi estilhaçada pelo primeiro episódio convulsivo, e o diagnóstico de um tumor cerebral ecoou como uma sentença terminal, anunciando prognósticos sombrios com alto risco de óbito ou graves sequelas neurológicas no pós-operatório. Neste período de incerteza e terror, seu marido esteve inabalavelmente ao seu lado, sendo seu pilar e sua força. Os médicos foram diretos e enfáticos: se ela fizesse a cirurgia, a probabilidade era de que não sobreviveria; e se porventura o fizesse, ficaria em estado vegetativo, nunca mais sendo a mesma de antes.

 

Esta resposta devastadora fez com que o marido, em uma semana, perdesse 11 kg devido à tensão e ao desespero. M.A.A.A., por sua vez, encontrou refúgio na oração constante, orando incessantemente, colocando sua fé acima de qualquer prognóstico científico. Com base em uma convicção profunda e movida por essa intensa fé, ela resolveu fazer a cirurgia, contrariando o corpo médico e declarando que iria realizar o procedimento e voltaria para casa, pois o destino anunciado pelos doutores não se cumpriria. A cirurgia foi realizada, mas o curso clínico foi dramático: M.A.A.A. permaneceu em coma por 21 dias. Ao despertar, o custo da vida era visível: afasia (dificuldade de comunicação), déficits cognitivos significativos e incapacidade de leitura.

 

Ela tentava ler frases repetidamente, mas sua mente se recusava a processar o significado do que estava escrito. O terror se instalava quando ela olhava para os rostos mais queridos e, em um momento de desorientação angustiante, não conseguia reconhecer seus entes próximos. Ela ficou confinada a uma cadeira de rodas por mais de um ano, e em seus momentos de maior vulnerabilidade, a pergunta dolorosa surgia: seria mesmo possível viver uma vida normal de novo? Essa dúvida, contudo, era rapidamente sufocada por sua fé inabalável e pelo poder da oração, que ela colocava à frente de qualquer questionamento médico ou pessoal.

 

O caminho à frente era o da recriação total: ela precisou reaprender a falar, buscando as palavras perdidas, reaprender a andar, dando os primeiros e hesitantes passos de um bebê, reaprender a ler, a juntar letras em significados, a realizar todas as tarefas que aprendemos na infância. Foi uma reabilitação extenuante, uma volta ao zero, mas com uma resiliência notável e impulsionada pela oração constante, M.A.A.A. demonstrou melhora a cada momento, enfrentando e superando as limitações funcionais severas que tentavam redefini-la.

 

Cinco anos depois, a paciente evoluiu com um segundo tumor cerebral, que foi removido com sucesso por uma cirurgia menos invasiva, realizada pela via endoscópica endonasal. Além disso, ao longo de sua vida, M.A.A.A. também havia sobrevivido a dois infartos, reforçando a complexidade e a inacreditável resiliência de seu histórico.

 

Retornando ao momento da consulta, a nova crise neurológica exigiu a solicitação urgente de novos exames de imagem. Diante da possibilidade real de mais uma recidiva tumoral, instaurou-se uma grande apreensão sobre como M.A.A.A. reagiria à perspectiva de enfrentar novamente um processo clínico tão intenso e devastador.

 

Os resultados confirmaram o pior: a presença de um novo tumor, localizado no mesmo sítio da lesão previamente removida. A equipe médica sugeriu a remoção cirúrgica para aliviar os sintomas e evitar a progressão da doença, mas alertou novamente para o risco elevado de sequelas permanentes. M.A.A.A. e o marido receberam todas as orientações e, diante de mais uma decisão de vida ou morte, solicitaram um tempo para refletir sobre a cirurgia.

 

Dois meses depois, uma junta médica foi convocada para reavaliar o caso, considerando especialmente a qualidade de vida da paciente. Ela retornou trazendo novos exames e informando que havia optado por não se submeter à cirurgia, preferindo viver seus dias sem o prolongado sofrimento associado às intervenções que já conhecia tão bem.

 

Entretanto, durante a reunião, ao analisarem as novas imagens, os médicos se depararam com um achado inesperado: o tumor havia desaparecido completamente. Surpresos, questionaram a paciente sobre o que havia feito naquele intervalo.

 

A resposta de Maria Argentina foi simples, direta e carregada de convicção:

  • Eu orei.

Maria Argentina Austregésilo de Andrade – ou, como tenho o privilégio de chamá-la, vovó – representa para mim um dos relatos mais marcantes sobre a força da fé. A Bíblia, um dos meus livros favoritos, reúne inúmeras passagens que mostram como a fé pode transformar realidades. Entre elas, uma das frases mais belas ditas por Jesus está em Mateus 9:22: “Tem bom ânimo, filha; a tua fé te salvou.”

 

Em retrospecto, é inegável que a oração e uma fé inabalável foram o alicerce de toda essa trajetória. Minha avó não apenas desafiou prognósticos desafiadores, mas sobreviveu a um total de 18 cirurgias ao longo de sua vida. Mesmo após aquele procedimento de altíssimo risco em que os médicos não lhe davam chance de vida, a resiliência de sua fé permitiu que ela prosseguisse. Ela ainda engravidou e deu à luz a três filhos. Durante as gestações, enfrentou problemas graves de eclâmpsia que exigiram que ela passasse por cirurgias complexas, realizadas com a presença de quatro médicos especialistas de diferentes áreas na sala de operação.

 

Foi por meio de Deus e de profissionais capacitados que ela conseguiu sobreviver a esses desafios. A oração nunca foi apenas um recurso, mas sim um pilar essencial que a sustentou em cada batalha. Foi por passar por todas essas dificuldades sem largar a mão de dEle e seguindo em constante oração que, hoje, ela está com 80 anos, com muita saúde e contra todos os prognósticos ruins, contando a sua história de superação e milagre.

 

Se não fosse pela fé, minha avó não estaria viva hoje. E, da mesma forma, sem a ciência, ela não teria sobrevivido aos primeiros dez anos de vida. Essa história reafirma uma verdade que, para mim, é inegociável: fé e ciência não são rivais. Na prática, quando caminham juntas, elas se fortalecem e salvam vidas.

 

E não é justamente esse o propósito maior da medicina?

Por que não permitir que fé e ciência sejam aliadas?

Eu, pessoalmente, permito e tenho vivido os frutos dessa união.

Pedro Austregésilo - Medicina com Propósito A Medicina me faz enxergar Deus nos detalhes @pedroaustregesilo

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