
MEDICINA, CIÊNCIA E TRANSFORMAÇÃO SOCIAL
Dr. Sulivan Mota e o legado de 40 anos do IPREDE
Existem profissionais que exercem a medicina — e existem aqueles que ajudam a redefinir o papel da saúde na transformação da sociedade. O Dr. Francisco Sulivan Bastos Mota pertence a esse segundo grupo.
Pediatra, professor, gestor social e titular da Academia Cearense de Medicina, ele liderou a evolução do IPREDE, que saiu de um centro de combate à desnutrição para se tornar uma das mais respeitadas instituições brasileiras dedicadas à primeira infância e ao desenvolvimento humano.
Em 2026, quando o Instituto celebra 40 anos de história, também vive um novo marco: o reconhecimento como Instituto de Ciência e Tecnologia (ICT), ampliando sua atuação em inovação e pesquisa. Nesta entrevista à Revista Saúde Ceará, Dr. Sulivan compartilha reflexões sobre infância, ciência, responsabilidade social e o papel da medicina na construção de um futuro mais humano.
Revista Saúde Ceará (RSC) – Sua trajetória se confunde com a própria história da pediatria e do desenvolvimento social do Ceará. O que o motivou a dedicar sua vida ao cuidado das crianças mais vulneráveis?
Dr. Sulivan Mota – Cheguei muito próximo da formatura sem ter definido qual especialidade seguiria. A decisão nasceu durante minha participação no Projeto Acadêmico Pacatuba, que me colocou em contato direto com a realidade da infância cearense. Naquela época, as crianças eram pouco vistas e pouco ouvidas. Essa vulnerabilidade me marcou profundamente.
Naquele período, a infância raramente ocupava o centro das decisões sociais. A criança era atendida depois do adulto, quase nunca era enxergada como protagonista da própria história e vivia exposta a diferentes formas de vulnerabilidade. Essa realidade despertou em mim a convicção de que era preciso construir mecanismos de proteção, acolhimento e desenvolvimento para aqueles que representam o futuro da sociedade.
Com o passar dos anos, compreendi que a criança precisa ser reconhecida como sujeito de direitos e prioridade social. Foi essa percepção que me aproximou definitivamente da pediatria. Quando cuidamos de uma criança, estamos cuidando também do futuro de uma família e de toda a sociedade.
RSC – Como equilibrar o rigor científico da medicina com a sensibilidade necessária para transformar realidades sociais?
Dr. Sulivan Mota – Sempre acreditei que a ciência nasce da necessidade, e a necessidade é percebida pela sensibilidade. É ela que aponta os caminhos da pesquisa e da inovação.
O IPREDE tornou-se um importante centro de estudos porque busca respostas para desafios concretos. Um exemplo são as pesquisas relacionadas ao autismo, incluindo estudos em biologia molecular que identificaram proteínas específicas presentes na saliva de crianças autistas, contribuindo para avanços no diagnóstico precoce. Esse trabalho, aliado ao reconhecimento recente do IPREDE como Instituto de Ciência e Tecnologia, demonstra que ciência e sensibilidade podem caminhar lado a lado em benefício das pessoas.
RSC – O IPREDE evoluiu de um centro de combate à desnutrição para um polo de desenvolvimento integral da primeira infância. Qual a importância desse olhar ampliado?
Dr. Sulivan Mota – Não existe cuidado infantil sem olhar para quem cuida da criança. Por isso, nosso trabalho sempre envolveu também as famílias, especialmente as mães.
Muitas vezes encontramos mulheres que chegam ao IPREDE sem autoestima, sem perspectivas e, em alguns casos, com vínculos fragilizados com seus próprios filhos, consequência direta de contextos marcados pela pobreza extrema e pela exclusão social. Uma das primeiras missões da instituição é justamente fortalecer esses vínculos, ajudando mães e crianças a construírem uma relação mais segura e afetiva.
O primeiro passo é mostrar a essas mulheres que elas possuem valor, potencial e capacidade de transformação. A partir daí, buscam qualificação profissional, inclusão produtiva e passam a exercer um papel decisivo na mudança da realidade familiar. Ao longo dos anos, percebemos algo muito claro: quando fortalecemos uma mulher, fortalecemos toda a família.
Também aprendemos que a desnutrição é apenas uma das faces da vulnerabilidade infantil. Hoje sabemos que os primeiros anos de vida são fundamentais para a formação cerebral. Uma criança estimulada, acolhida e vinculada afetivamente à sua família desenvolve muito mais potencialidades. Por isso, trabalhamos com nutrição, educação, cultura, esporte, vínculo familiar e desenvolvimento humano. Cuidar da criança de forma integral é investir no capital humano da sociedade.
RSC – Como o senhor enxerga a importância das parcerias entre iniciativa privada, poder público e terceiro setor na construção de uma sociedade mais justa?
Dr. Sulivan Mota – Eu não vejo outro caminho. Nenhum setor consegue responder sozinho às demandas sociais da atualidade. Governo, empresas e organizações da sociedade civil precisam atuar de forma integrada.
O terceiro setor tem desempenhado papel fundamental em áreas como oncologia, reabilitação, primeira infância e autismo. Hoje enfrentamos uma demanda crescente relacionada às neurodivergências, especialmente ao transtorno do espectro autista, que desafia sistemas públicos e privados em todo o mundo.
A necessidade de diagnóstico e intervenção precoce cresce continuamente. Isso exige pesquisa, inovação e novas metodologias capazes de ampliar o acesso sem comprometer a qualidade do atendimento. Quando os três setores unem forças, não apenas somam capacidades, mas potencializam resultados. A transformação social exige cooperação, compartilhamento de responsabilidades e compromisso coletivo.
RSC – Como titular da Academia Cearense de Medicina, qual mensagem o senhor deixa para os jovens médicos?
Dr. Sulivan Mota – Aos pediatras, faço um pedido especial: nunca percam a capacidade de escutar. Muitas vezes, a escuta tem tanto valor quanto qualquer exame complementar. É através dela que compreendemos a dinâmica familiar e entendemos verdadeiramente as necessidades da criança.
Para todos os médicos, independentemente da especialidade, deixo uma reflexão simples: a tecnologia avançou extraordinariamente e isso é maravilhoso. Mas jamais devemos enxergar apenas a doença. É preciso continuar vendo o ser humano por trás dela. O toque, a empatia e a compreensão da pessoa continuarão sendo partes essenciais da medicina.
RSC – Após tantas décadas dedicadas à infância e ao desenvolvimento humano, o que mantém seu entusiasmo e sua disposição?
Dr. Sulivan Mota – O que nos alimenta são os resultados. Ver uma criança desenvolver seu potencial, especialmente quando ela chegou até nós em situação de grande vulnerabilidade, é algo extraordinário.
Também é extremamente gratificante acompanhar a trajetória de mães que conquistaram autonomia, ingressaram no mercado de trabalho e transformaram completamente suas perspectivas de vida. São histórias que demonstram o poder da educação, do acolhimento e da oportunidade.
Ao longo desses 40 anos, vimos milhares de histórias de superação. Cada conquista reforça nossa convicção de que vale a pena continuar. Trabalhar com desenvolvimento humano proporciona uma verdadeira nutrição espiritual. É como assistir diariamente a um filme de esperança, dignidade e transformação.
Aos 40 anos, o IPREDE consolida uma trajetória que une ciência, inovação e compromisso social, mostrando que transformar a vida de uma criança é transformar o futuro da sociedade.
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