
O que leva uma pessoa a apostar?
“É só uma aposta.”
No início, parece apenas entretenimento. Alguns reais, alguns minutos de emoção, a expectativa de ganhar. Mas, para um número crescente de pessoas, essa pequena decisão se transforma em um ciclo de perdas financeiras, sofrimento psicológico, endividamento e destruição de vínculos familiares.
O Brasil vive, silenciosamente, uma das maiores crises de saúde mental dos últimos anos: a epidemia das apostas on-line. E o problema não é apenas individual. É coletivo. Cada pessoa adoecida representa uma família que sofre.
O problema não está apenas no dinheiro perdido. Ele é muito mais profundo. Poucas pessoas entram em uma plataforma de apostas procurando apenas dinheiro. O dinheiro representa outra coisa. Representa esperança. Representa mudança. Representa a fantasia de escapar rapidamente de uma realidade difícil.
A Parábola do Filho Pródigo representa bem essa característica humana. Mais do que a história de um jovem que desperdiçou sua herança, ela retrata alguém que trocou, em pouco tempo, aquilo que levou anos para ser construído. No fundo, é uma história sobre a sedução dos atalhos: o desejo de alcançar rapidamente aquilo que normalmente exige tempo, trabalho e maturidade.
De maneira semelhante, as apostas não vendem apenas a possibilidade de ganhar dinheiro. Vendem a ilusão de que um único clique pode transformar uma vida inteira.
Em uma sociedade marcada pela desigualdade, pelo endividamento, pelo excesso de trabalho e pela escassez de perspectivas, vender a promessa de riqueza instantânea se torna extremamente sedutor. Porque, no fundo, o verdadeiro público-alvo da indústria das apostas é alguém que procura no jogo um breve alívio para dores que continuam esperando do lado de fora da tela. Porque toda dependência nasce da mesma promessa:
“Talvez agora eu me sinta melhor.”
Foi assim com o cigarro. Com o álcool. Com algumas drogas. E agora acontece com as apostas digitais. A tecnologia apenas tornou esse processo mais eficiente. Hoje, um cassino inteiro cabe no bolso. Funciona vinte e quatro horas por dia, conhece os hábitos do usuário, envia notificações, oferece bônus e recompensa pequenas vitórias para incentivar perdas muito maiores depois. Não estamos falando apenas de jogos. Estamos falando de plataformas cuidadosamente desenvolvidas para manter o cérebro conectado pelo maior tempo possível.
Isso nos leva a uma reflexão importante. Como sociedade, aceitamos que medicamentos precisam de controle sanitário. Controlamos propaganda de cigarros. Limitamos publicidade de bebidas alcoólicas para crianças e adolescentes. Reconhecemos que produtos com alto potencial de causar dependência exigem limites. Por que deveria ser diferente com as apostas?
Se uma atividade possui capacidade comprovada de gerar transtorno mental (CID-10: F63.0), endividamento e desestruturação familiar, sua publicidade não pode ser livre. Liberdade econômica não pode significar liberdade para explorar fragilidades humanas. Existe uma diferença fundamental entre oferecer um produto e construir uma indústria baseada na vulnerabilidade psicológica das pessoas. Até que ponto isso é eticamente aceitável?
Porque proteger a liberdade das pessoas também significa protegê-las daquilo que foi cuidadosamente desenhado para aprisionar sua liberdade.


A dependência neuro química, gerada nesses jogos de azar, no uso abusivo de telas, traz consigo um enorme impacto não só aos usuários mas tbm as famílias, o adoecimento mental tanto do individuo como da rede de apoio, um vício visto por poucos, que passa despercebido por muitos; os jogos de azar e uso de telas, está trazendo uma falência mental.