Nutrição Oncológica

CRIO – Centro Regional Integrado de Oncologia

O câncer de pulmão é, por definição anatômica, uma doença do sistema respiratório. Essa característica alimenta um equívoco comum, inclusive entre profissionais de saúde: o de que o cuidado nutricional seria dispensável, reservado às neoplasias do trato gastroin-testinal. A evidência científica desmente essa premissa. Estudos apresentados no World Conference on Lung Cancer (WCLC) 2025 mostraram que 76% dos pacientes já ingressam no tratamento em risco nutricional e 64% relatam perda de peso ao diagnóstico, antes mesmo do início da terapia antineo-plásica. O mecanismo é sistêmico, não local: o tumor pulmonar libera citocinas pró-inflamatórias (IL-6, TNF-α, IFN-γ) que elevam o gasto energético de repouso, aceleram a degradação proteica muscular e suprimem o apetite — o substrato fisiopatológico da caquexia neoplásica.

 

Os números são inequívocos. Uma metanálise de 2024, reunindo 5.919 pacientes com câncer de pulmão de não pequenas células, encontrou prevalência combinada de caquexia de 39% e risco 84% maior de morte e 49% maior de progressão da doença (HR-OS 1,84; HR-PFS 1,49), mesmo após ajuste para fatores prognósticos tradicionais. Dados da população brasileira mostram o mesmo padrão: pacientes com anorexia clínica — evento adverso subnotificado, mas graduá-vel pelos critérios CTCAE — apresentaram sobrevida global mediana de 23,7 meses, contra 42,5 meses entre os sem anorexia (log-rank p = 0,002), redução atribuível a um único sintoma frequentemente ignorado nas consultas oncológicas. Em cirurgia torácica, 100 dias de tratamento antineoplásico podem induzir perda de até 13% da massa muscular — o equivalente a 20 anos de sarcopenia fisiológica; circunferência de panturrilha e força de preensão palmar ao diagnóstico já se mostraram preditivas de sobrevida global.

 

“Perda de peso não é um efeito colateral esperado do câncer de pulmão — é um evento clínico mensurável, graduável e, sobretudo, tratável.”

 

Uma coorte prospectiva do WCLC 2024 acrescentou outra camada: o consumo de fibras alimentares modula o microbioma intestinal e a imunidade antitumoral. Pacientes com ingestão de fibras ≥ 19,05 g/dia apresentaram sobrevida global mediana de 56,5 meses, contra 33,9 meses entre os de baixo consumo — diferença de 66% associada a um único hábito alimentar modificável. Ainda assim, o consumo médio observado (14,85 g/dia) correspondeu a menos da metade da recomendação (30 g/dia), evidenciando lacuna assistencial expressiva e de baixo custo para corrigir.

 

ASCO, ESMO, NCCN e MASCC convergem: o rastreio nutricional deve ser precoce, recorrente e sistemático em todo paciente oncológico, com ferramentas validadas como a Avaliação Subjetiva Global Produzida pelo Paciente (ASG-PPP) e os critérios GLIM. Em candidatos à cirurgia, a Sociedade ERAS recomenda intervenção nutricional perioperatória com nutrientes imunomoduladores; no tratamento clínico sistêmico, maior aporte proteico e suplementação de ômega-3 associam-se a ganho de peso, massa e força muscular, com sinais de melhor sobrevida livre de progressão e global em análises exploratórias do estudo IMPATOX.

 

Não foi casual que o mês de conscientização sobre o câncer de pulmão — o Agosto Branco — tenha culminado no Dia do Nutricionista, celebrado em 31 de agosto. A ausência de reconhecimento do impacto da desnutrição motivou um apelo formal na literatura internacional para que a nutrição clínica seja considerada um direito humano na jornada oncológica, integrando o nutricionista à equipe multidisciplinar desde o diagnóstico — e não apenas quando a perda de peso já é visível. É essa integração precoce que orienta o cuidado interdis-ciplinar oferecido no CRIO – Centro Regional Integrado de Oncologia, onde o acompanhamento nutricional acontece lado a lado com o tratamento oncológico desde o primeiro dia.

 

“Rastrear risco nutricional deve ser tão rotineiro quanto solicitar um estadiamento.”

 

Para os profissionais de saúde, o alerta é direto: identificar precocemente o risco nutricional deve fazer parte do exame inicial de todo paciente com câncer de pulmão — e não de uma investigação tardia motivada por emagrecimento já visível. Para pacientes e famílias, a mensagem é de empoderamento: comunicar perda de apetite, peso ou força não é queixa menor, mas informação clínica com peso prognóstico comparável a marcadores tumorais.
Investir em terapia nutricional especializada ao longo de toda a jornada — da cirurgia à quimioterapia, da radioterapia ao manejo dos efeitos colaterais — significa investir diretamente em sobrevida, funcionalidade e qualidade de vida. O legado do Agosto Branco é um convite duplo: rastrear precocemente o câncer de pulmão e, com o mesmo rigor, rastrear precocemente a desnutrição que o acompanha.

 

Leia mais: https://revistasaudeceara.com.br/por-que-o-rastreamento-do-cancer-de-pulmao-pode-salvar-vidas/

Nutrição oncológica
Carone Lima - Nutricionista Oncológica - @centrodeoncologiacrio

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