O desafio de falar sobre
meritocracia no mundo atual
Atualmente, falar sobre meritocracia é cada vez mais delicado. A ideia central parece simples: quem se esforça mais tende a vencer. Em teoria, esse princípio soa justo, quase intuitivo. No entanto, na medicina, observando a realidade da vida humana, essa equação está longe de ser tão simples. Nem todos iniciam a jornada a partir do mesmo ponto.
Há crianças que crescem sem saneamento básico, sem segurança alimentar, sem acesso consistente à educação de qualidade. Muitas convivem desde cedo com violência, instabilidade familiar ou ausência de vínculos afetivos seguros. Outras, por sua vez, nascem em ambientes estruturados, com nutrição adequada, estímulos cognitivos, estabilidade emocional e múltiplas oportunidades.
Seria razoável afirmar que todos partem do mesmo ponto de largada? A experiência clínica mostra que não.
No consultório médico, essa desigualdade se manifesta em corpos, comportamentos e trajetórias de vida. Hoje, a neurociência diz que o cérebro de uma criança exposta a estresse prolongado pode se desenvolver de forma diferente daquele que cresce em ambiente seguro e previsível. A pessoa que vive permanentemente em modo de sobrevivência aprende a priorizar defesa imediata, não planejamento futuro.
Por isso, quando alguém afirma que “basta esforço para vencer”, frequentemente ignora uma variável essencial: o terreno onde esse esforço é aplicado. É como a “Parábola do Semeador”: a semente é a mesma, mas o solo não é. Há solos compactados, onde a semente mal consegue penetrar; há terrenos pedregosos, onde as raízes não encontram profundidade; há campos tomados por espinhos que sufocam o crescimento. E há também solos férteis, preparados e nutridos. A diferença de resultado, muitas vezes, não está na semente. Está no terreno.
Isso não significa que o esforço individual seja irrelevante. Pelo contrário: o esforço continua sendo um dos motores mais importantes de transformação humana. Porém, ele não explica tudo. Confundir sucesso com mérito absoluto gera distorções perigosas. Do ponto de vista médico, quando observamos alguém que alcançou sucesso no mundo contemporâneo, a única afirmação verdadeiramente objetiva que podemos fazer é a seguinte:
“Essa pessoa conseguiu jogar bem o jogo que estava disponível para ela naquele contexto.”
O sucesso mundano mede eficiência dentro de um sistema. Mas ele não mede caráter. Não mede profundidade humana. Não mede capacidade de amar… Alguns chegaram ao topo sendo brilhantes e generosos. Outros chegaram movidos por frieza, oportunismo ou desonestidade.
Diante dessa constatação, o papel do médico — especialmente quando lidamos com saúde mental — não é julgar quem floresceu e quem não floresceu. Nosso trabalho é compreender o terreno onde cada vida foi plantada, aliviar o sofrimento e, sempre que possível, ajudar a melhorar o solo.
Quando olhamos a vida humana com honestidade clínica — não apenas estatística — percebemos que histórias individuais são sempre mais complexas do que narrativas simplificadas de sucesso ou fracasso.
A medicina ensina uma lição importante: antes de interpretar um resultado, é preciso entender o contexto fisiológico em que ele surgiu. Talvez por isso, mais importante do que discutir quem merece mais aplausos seja perguntar: que tipo de sociedade estamos cultivando? Uma sociedade que apenas celebra quem floresceu ou uma sociedade que se preocupa também em preparar melhor o solo?
Porque quando o solo melhora, mais vidas conseguem florescer. E quando mais vidas florescem, todos nós — individual e coletivamente — nos tornamos mais saudáveis. Essa talvez seja uma das lições mais profundas que a prática médica pode oferecer: compreender antes de julgar e lembrar que, por trás de cada história, sempre existe um terreno que precisa ser visto. E compreender isso muda completamente a maneira como enxergamos o sucesso, o fracasso e, sobretudo, as pessoas.
Parabéns Dr!!! Acredito que todos nós temos um terreno, e o meu foi difícil mais eu plantei e hoje estou colhendo, graças a Deus. Feliz Páscoa que Deus te abençoe e proteja sempre🙏