Medicina, inovação e legado

Dr. Márcio Crisóstomo: uma trajetória que ganhou projeção internacional e hoje se volta também à formação de novas gerações

 e à construção de um legado no Ceará.

Construiu uma trajetória marcada pela cirurgia plástica, inovação e busca permanente por excelência. Com atuação reconhecida na restauração capilar, ampliou sua carreira para o ensino, a formação de novos cirurgiões e a construção de projetos que unem medicina, ciência, arquitetura e cultura.


Nesta entrevista à Revista Saúde Ceará, fala sobre formação, inovação, liderança, ensino e sobre o desejo de fazer do Ceará não apenas um lugar que recebe conhecimento, mas também um polo capaz de produzir e levar conhecimento ao mundo.

Revista Saúde Ceará (RSC) — Sua formação passa pela Escola do Professor Ivo Pitanguy, uma das mais importantes da história da cirurgia plástica mundial. De que maneira essa origem influenciou sua maneira de enxergar a medicina?

 

Dr. Márcio: Tive o privilégio de ser formado na Escola do Professor Ivo Pitanguy, e isso influenciou muito mais do que a minha técnica cirúrgica. Influenciou a maneira como enxergo a medicina.

 

O Professor tinha uma formação humanística extraordinária. Falava de cirurgia, mas também de arte, cultura, beleza, proporção e, principalmente, de pessoas. Aprendemos que um bom cirurgião não deveria limitar sua formação ao centro cirúrgico.

 

Talvez venha daí meu interesse por arte, fotografia, arquitetura, música e história. Sempre achei que tudo isso educa o olhar e amplia nossa percepção do ser humano.

 

Hoje tenho a honra de atuar como Diretor Científico da Associação dos Ex-Alunos do Professor Ivo Pitanguy. Poder contribuir para preservar essa escola de pensamento e transmiti-la às novas gerações tem um significado muito especial para mim.

 

RSC — O senhor esteve entre os pioneiros da moderna restauração capilar no Brasil. Como foi construir esse caminho a partir do Ceará e alcançar projeção internacional?

 

Dr. Márcio: Quando comecei a me dedicar à restauração capilar, o transplante já era realizado no Brasil por excelentes cirurgiões. Minha contribuição foi escolher mergulhar profundamente nessa área em um momento em que ela ainda passava por uma grande transformação tecnológica.

 

Durante um período importante da minha carreira, dediquei-me quase exclusivamente ao transplante capilar. Estudamos técnicas internacionais, introduzimos de maneira pioneira no Brasil a FUE — que posteriormente se tornaria a técnica predominante mundialmente — e desenvolvemos métodos próprios, especialmente para o tratamento de calvícies avançadas e grandes sessões cirúrgicas.

 

Algumas dessas técnicas ultrapassaram nossas fronteiras e foram publicadas em livros internacionais da especialidade. Para mim, isso tem um significado especial: mostrar que inovação médica de relevância mundial também pode ser produzida a partir do Ceará. Isso me dá muito orgulho porque tudo foi desenvolvido aqui, no Ceará.

 

Nunca acreditei que fosse necessário estar nos grandes centros do Brasil, nos Estados Unidos ou na Europa para produzir medicina de vanguarda. É preciso estar conectado ao mundo, viajar, estudar e trocar experiências. Mas é perfeitamente possível voltar para casa e produzir conhecimento de nível internacional a partir daqui.

 

RSC — Em outro momento importante da sua trajetória, o senhor estudou Surgical Leadership na Harvard Medical School. Como essa experiência influenciou a construção dos seus projetos atuais?

 

Dr. Márcio: Harvard aconteceu em uma fase diferente da minha vida profissional e teve um impacto enorme sobre mim.

 

Passei um ano em uma pós-graduação em Surgical Leadership na Harvard Medical School, convivendo com cirurgiões e profissionais de diferentes países. Foi uma experiência acadêmica extraordinária e também uma experiência humana e cultural.

 

Ali passei a pensar de maneira mais estruturada sobre liderança, formação de equipes, ensino, inovação e sobre como construir instituições capazes de funcionar em nível de excelência para além de uma única pessoa.

 

Muito do que aplicamos hoje na Crisóstomo Academy, na organização das equipes e também na concepção do nosso centro cirúrgico e, posteriormente, do VUÓRI Hospital, amadureceu a partir dessa experiência.

 

Em algum momento da carreira, você percebe que a excelência não pode estar apenas na mão do cirurgião. Ela precisa estar na cultura, nos processos, nas pessoas e no ambiente que você constrói ao seu redor.

 

RSC — Arte, arquitetura e cultura estão muito presentes nos ambientes e projetos que o senhor desenvolve. O que isso tem a ver com cirurgia e medicina?

 

Dr. Márcio: Para mim, tem tudo a ver. A cirurgia plástica é profundamente científica, mas existe nela uma dimensão artística inevitável. Trabalhamos com proporção, volume, equilíbrio, luz, sombra, simetria e, ao mesmo tempo, com algo muito mais complexo: identidade.

 

Por isso sempre gostei de olhar para fora da medicina. Arte, fotografia, arquitetura, música e design educam o olhar. Às vezes, uma visita a um museu, uma fotografia ou um edifício extraordinário ensinam sobre proporção e beleza de uma maneira que nenhum livro médico consegue ensinar.

 

Tentei levar um pouco dessa visão para os lugares que construímos. Um ambiente de saúde não precisa ser frio ou impessoal. Ele pode ter arte, arquitetura, beleza e acolhimento sem abrir mão de rigor, tecnologia e segurança.

 

Ciência e sensibilidade não são opostos. Na boa medicina, elas se complementam.

 

RSC — A Crisóstomo Academy transformou Fortaleza em destino de médicos brasileiros e estrangeiros interessados em aprender suas técnicas. O que representa hoje compartilhar esse conhecimento?

 

Dr. Márcio: Essa é uma das coisas que mais me dão satisfação nesta fase da carreira.

 

Já recebemos na Crisóstomo Academy colegas de praticamente todos os estados brasileiros e médicos de mais de dez países, entre eles Colômbia, Índia, Austrália, Líbano, Alemanha, Chile, México e Peru.

 

Existe algo muito simbólico em profissionais atravessarem o Brasil ou o mundo para vir ao Ceará aprender técnicas que desenvolvemos aqui.

 

No começo da carreira, você está preocupado em aprender. Depois, quer fazer bem. Em seguida, quer inovar. E chega um momento em que percebe que também precisa ensinar.

 

Eu gosto muito dessa troca porque ensinar também nos obriga a questionar aquilo que fazemos. Quando alguém pergunta “por que você faz dessa maneira?”, é preciso ter uma resposta melhor do que simplesmente “porque sempre fiz assim”.

 

Ensinar também nos faz aprender. E hoje considero a formação de outros médicos uma parte importante do legado que estamos construindo.

 

RSC — Depois de mais de duas décadas de carreira, qual é a sua visão para o futuro da medicina e para os próximos capítulos da sua própria trajetória?

 

Dr. Márcio: Sou muito otimista em relação ao futuro. Inteligência artificial, robótica, medicina regenerativa e tratamentos cada vez mais personalizados vão transformar profundamente a medicina, e quero continuar participando dessa transformação.

 

Ao mesmo tempo, vivo uma mudança natural na minha carreira. Durante muitos anos, meu foco esteve em me desenvolver como cirurgião, operar, criar técnicas e buscar resultados cada vez melhores. Continuo apaixonado por cirurgia, mas hoje meu horizonte é maior.

 

Quero formar médicos, desenvolver equipes, ampliar nosso centro de ensino e consolidar o VUÓRI como um hospital aberto também a outros cirurgiões que compartilhem dessa busca por excelência. Tenho cada vez mais interesse em construir coisas que possam existir além de mim.

 

E existe algo que me dá um orgulho particular: fazer isso no Ceará.

 

Viajei muito, estudei fora e continuo buscando referências no mundo inteiro. Mas sempre voltei para Fortaleza. Hoje recebemos aqui pacientes e médicos de diferentes lugares.

 

Talvez a minha visão de futuro seja justamente essa: continuar olhando para o mundo, trazendo o que existe de melhor para cá e, cada vez mais, fazer com que aquilo que produzimos no Ceará também seja levado para o mundo.

 

Leia Mais: https://revistasaudeceara.com.br/polilaminina-lesao-medular/

Dr. Márcio Crisóstomo em entrevista sobre medicina, inovação, restauração capilar e Crisóstomo Academy
Dr. Márcio Crisóstomo CRM: 7164/ RQE: 4125 Cirurgião Plástico @drmarciocrisostomo

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