Liderança e Ética Médica

Dra. Inês Melo: defender a boa prática médica é proteger a sociedade

Primeira mulher a presidir o Conselho Regional de Medicina do Estado do Ceará (CREMEC) em seus 64 anos de história, a anestesiologista Dra. Inês Tavares Vale e Melo assumiu o comando da instituição em um período de profundas transformações da medicina. Inteligência artificial, formação médica, ética profissional, fiscalização e valorização do exercício da medicina estão entre os temas que desafiam a profissão e exigem respostas cada vez mais firmes das entidades médicas.

 

Nesta entrevista à Revista Saúde Ceará, ela analisa esse cenário e reafirma o compromisso do CREMEC com a defesa da boa prática médica e a proteção da sociedade.

Revista Saúde Ceará (RSC) – Dra. Inês, quais têm sido as principais bandeiras do CREMEC para fortalecer a valorização do médico e garantir uma assistência cada vez mais segura e qualificada à população cearense?

 

Dra. Inês – O médico foi, é e sempre será o líder da equipe de saúde, atuando em harmonia com os demais profissionais e respeitando as competências de cada área. Em sintonia com o Conselho Federal de Medicina (CFM) e os demais Conselhos Regionais, o CREMEC tem como principal bandeira a defesa da boa prática médica. Valorizar o médico significa assegurar uma assistência ética, segura e de qualidade à população.

 

Essa atuação começa pela defesa de uma formação médica de excelência. Por isso, o Conselho apoia iniciativas que fortaleçam a qualidade da formação, como o rigor do Revalida, o Exame Nacional de Proficiência em Medicina (ProfiMed) e medidas para conter a abertura indiscriminada de cursos de medicina sem infraestrutura adequada.

 

Também defendemos a autonomia profissional e o respeito ao Ato Médico, atuando quando competências privativas da medicina são exercidas por outras categorias.

 

Outra frente importante é o combate às fraudes. O CFM disponibiliza ferramentas oficiais, como a plataforma Atesta CFM, que reforça a segurança e a confiabilidade dos documentos médicos.

 

No âmbito institucional, conforme estabelece a Lei nº 3.268/1957, o CREMEC realiza fiscalizações permanentes das condições de trabalho dos médicos em hospitais públicos e privados. O objetivo é garantir condições éticas, estruturais e assistenciais adequadas ao exercício da medicina, fortalecendo a atuação do médico e a qualidade da assistência prestada à sociedade.

 

RSC – A medicina vive um momento de profundas transformações impulsionadas pela tecnologia, inteligência artificial e telemedicina. Como o Conselho atua para garantir que a inovação caminhe lado a lado com a ética e a humanização do cuidado?

 

Dra. Inês – A inovação tecnológica representa um avanço importante para a medicina, desde que utilizada com responsabilidade e em conformidade com os princípios éticos da profissão. Nesse sentido, o Conselho Federal de Medicina publicou a Resolução CFM nº 2.454/2026, que regulamenta o uso da Inteligência Artificial na prática médica em todo o país.

 

A norma assegura ao médico o uso de ferramentas de inteligência artificial como apoio à decisão clínica, à pesquisa, à educação médica e à gestão em saúde. No entanto, estabelece de forma clara que as decisões diagnósticas, terapêuticas e prognósticas permanecem sob responsabilidade exclusiva do médico. Também garante ao profissional o direito de não utilizar tecnologias sem validação científica, certificação regulatória ou conformidade ética.

 

Cabe ao Conselho regulamentar e fiscalizar esse processo, assegurando que a tecnologia seja uma aliada da prática médica, jamais um substituto da avaliação clínica, do julgamento profissional ou da responsabilidade do médico.

 

Da mesma forma, a inteligência artificial nunca poderá substituir elementos essenciais da relação médico-paciente, como a escuta qualificada, a empatia, a confidencialidade e o respeito à dignidade humana. Sempre que utilizada como ferramenta de apoio, o paciente deve ser informado de forma clara e acessível, preservando sua autonomia e seus direitos.

 

RSC – A expansão dos cursos de medicina tem gerado debates em todo o país. Na sua avaliação, quais são os maiores desafios para assegurar a qualidade da formação médica e como o CREMEC tem acompanhado essa questão no Ceará?

 

Dra. Inês – Dra. Inês – A qualidade da formação médica é hoje uma das principais preocupações dos Conselhos de Medicina. Os resultados do Exame Nacional de Avaliação da Formação Médica (ENAMED) 2025, realizado pelo Ministério da Educação, revelam um cenário preocupante: dos 39.256 concluintes avaliados, 13.871 estão se formando em cursos com conceitos 1 e 2, abaixo do mínimo considerado aceitável pela metodologia do MEC.

 

Isso significa que uma parcela expressiva de novos médicos pode ingressar no mercado sem demonstrar as competências mínimas necessárias ao exercício da profissão, o que representa um risco direto à segurança dos pacientes.

 

Também acompanhamos com atenção a Medida Provisória nº 1.370/2026, que propõe o ENAMED como requisito para o registro profissional. Embora represente um avanço no processo avaliativo, entendemos que ela não enfrenta a raiz do problema: a abertura de cursos de medicina sem estrutura adequada de ensino e prática.

 

Por isso, o CREMEC e o Conselho Federal de Medicina defendem medidas mais rigorosas para avaliar a formação médica. Entre elas está o Exame Nacional de Proficiência em Medicina (ProfiMed), previsto no Projeto de Lei nº 2.294/2024, atualmente em tramitação no Congresso Nacional e amplamente debatido com a sociedade e as entidades médicas.

 

Avaliar o médico antes do registro profissional é uma medida amplamente apoiada pela sociedade. Segundo pesquisa do Instituto Datafolha, 96% dos brasileiros são favoráveis a esse tipo de avaliação. No entanto, essa análise precisa ir além do conhecimento teórico, contemplando também competências clínicas, éticas, emocionais e de comunicação, indispensáveis ao exercício da medicina.

 

RSC – As redes sociais se tornaram importantes ferramentas de comunicação para os profissionais da saúde. Quais são hoje os principais desafios relacionados à ética médica no ambiente digital e quais orientações o Conselho tem reforçado junto à classe médica?

 

Dra. Inês – As redes sociais são importantes ferramentas de comunicação e educação em saúde, desde que utilizadas com responsabilidade e em conformidade com os princípios éticos da medicina.

 

O desafio surge quando a busca por visibilidade, engajamento ou monetização se sobrepõe à finalidade informativa e educativa da comunicação médica. O ambiente digital reúne, ao mesmo tempo, informação, publicidade, opinião e entretenimento, o que exige atenção redobrada do profissional.

 

A comunicação ética deve informar sem gerar falsas expectativas, esclarecer sem explorar o medo e educar sem expor ou desrespeitar pacientes. A dignidade da pessoa humana deve ser preservada em todas as situações, assim como os limites técnicos e éticos da profissão.

 

Ao mesmo tempo, as redes sociais representam uma oportunidade relevante para ampliar o acesso à informação confiável, combater a desinformação e aproximar a linguagem científica da população.

 

A credibilidade da medicina se sustenta em valores como prudência, responsabilidade, confidencialidade e compromisso com a vida — princípios que também devem orientar a atuação do médico no ambiente digital.

 

RSC – Nesta edição, estamos reunindo algumas das mais importantes lideranças médicas, jurídicas e empresariais do Ceará. Como a senhora enxerga a importância da integração entre esses setores para o desenvolvimento do Estado e a promoção do bem-estar da sociedade?

 

Dra. Inês – A integração entre saúde, Direito e iniciativa privada é essencial para o desenvolvimento de qualquer sociedade. Esses setores exercem funções distintas, mas compartilham responsabilidades na construção de soluções que ampliem o acesso da população a serviços de qualidade.

 

Uma saúde forte depende de um ambiente jurídico que assegure direitos, de um setor produtivo capaz de gerar emprego e inovação e de políticas públicas eficientes. Da mesma forma, o bem-estar da população vai além da assistência médica e envolve acesso a serviços, educação, segurança e condições que promovam qualidade de vida.

 

Quando essas lideranças atuam de forma integrada e mantêm um diálogo permanente, constroem soluções mais eficazes e quem mais se beneficia é a sociedade.

 

RSC – Após 64 anos de história do CREMEC, a senhora tornou-se a primeira mulher a assumir a presidência da instituição. Qual o significado desse marco para a medicina cearense e que mensagem ele transmite às novas gerações de médicas que buscam posições de liderança?

 

Dra. Inês – Esse marco representa a superação de uma barreira histórica e reflete o amadurecimento da medicina brasileira. Hoje, mais da metade dos estudantes de Medicina no país é formada por mulheres, o que vem transformando naturalmente o perfil da profissão.

 

No CREMEC, a presença feminina na diretoria também é expressiva, reforçando essa mudança na liderança médica. São profissionais que conciliam assistência, gestão, ensino, pesquisa e, muitas vezes, as responsabilidades da vida familiar.

 

A medicina se fortalece com uma gestão baseada no diálogo, na escuta e no cuidado — valores que fazem parte da prática médica e contribuem para a defesa da ética e da boa medicina.

 

Às jovens médicas, deixo um convite: busquem formação sólida, estudem gestão e políticas de saúde, participem das entidades de classe e ocupem espaços de decisão. A liderança não é um destino; é uma construção.

 

Espero que, no futuro, não seja mais necessário destacar “a primeira mulher” a ocupar determinados cargos, porque isso significará que muitas outras já terão trilhado esse caminho. Essa conquista não é individual. Ela representa todas as mulheres que contribuíram para a construção da medicina cearense.

 

RSC – Ao olhar para os próximos anos, quais são os principais desafios e oportunidades que a senhora vislumbra para o fortalecimento da medicina cearense?

 

Dra. Inês – Os próximos anos serão decisivos para consolidar uma medicina mais estruturada, ética e inovadora no Ceará e no Brasil. Ao lado dos avanços científicos e tecnológicos, persistem desafios que exigem atenção permanente.

 

Entre eles estão a sustentabilidade do sistema de saúde, tanto público quanto suplementar, a crescente judicialização da medicina, a precarização das relações de trabalho e o enfrentamento da violência contra os profissionais de saúde.

 

Também será fundamental garantir melhores condições para o exercício da medicina e ampliar o acesso da população a serviços de qualidade, com a interiorização da assistência especializada e o fortalecimento da formação médica.

 

A tecnologia deve ser uma aliada da prática médica, jamais uma substituta da relação médico-paciente. A medicina precisa preservar seu caráter humano, mesmo diante das transformações digitais.

Como tem defendido o Conselho Federal de Medicina, não podemos conviver com uma medicina desigual. O compromisso deve ser com uma assistência ética, segura e acessível a todos.

 

O CREMEC continuará exercendo seu papel de fiscalização, orientação e diálogo institucional, sempre com foco na valorização do médico e na proteção da sociedade.

 

Leia Mais: https://revistasaudeceara.com.br/a-forca-do-pioneirismo/

Dra. Inês Melo primeira mulher presidente do CREMEC em entrevista para a Revista Saúde Ceará
Dra. Inês Melo CRM: 5183 / RQE: 2932, 2933 e 6122. Presidente do CREMEC

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