Liderar é cuidar de pessoas

Dr. Elias Leite analisa os desafios da medicina contemporânea e

os caminhos para uma liderança mais humana na saúde.

Para o médico e gestor Dr. Elias Leite, inovação, estratégia e resultados só fazem sentido quando preservam aquilo que há de mais valioso na medicina: o cuidado com as pessoas.

 

Médico otorrinolaringologista de formação, o Dr. Elias Leite construiu uma trajetória singular ao migrar da prática clínica para a gestão em saúde há pouco mais de uma década. Hoje é uma das principais referências nacionais em estratégia, liderança e cultura organizacional, levando para a gestão os princípios que marcaram sua atuação na medicina: ouvir, cuidar e colocar as pessoas no centro das decisões.

 

Com sólida formação em gestão, finanças e governança, é autor dos livros Líder de Resultado e Liderança com Alma, palestrante, mentor de executivos e ex-presidente da Unimed Fortaleza. Atualmente, é diretor Comercial, de Produtos e Marketing da Seguros Unimed.

 

Nesta entrevista exclusiva à Revista Saúde Ceará, compartilha sua visão sobre liderança, empreendedorismo, inteligência artificial e os desafios da medicina contemporânea. Ao longo da conversa, uma convicção se repete: liderar é, antes de tudo, cuidar de pessoas.

Revista Saúde Ceará (RSC) – Dr. Elias, o senhor consolidou-se como uma das maiores referências em gestão de saúde, estratégia e liderança do país. Como o senhor enxerga o maior desafio do médico moderno ao equilibrar vocação assistencial e eficiência?

 

Dr. Elias Leite: Vivemos um período de profundas transformações na saúde. As exigências aumentaram, as margens estão mais estreitas e a inteligência artificial passou a integrar definitivamente a rotina de médicos, clínicas e hospitais. Ignorar essa realidade não é uma opção.

 

O grande desafio é conciliar eficiência, sustentabilidade e cuidado, oferecendo ao paciente exatamente o que ele necessita e utilizando os recursos disponíveis de forma responsável. Ao mesmo tempo, é preciso incorporar as novas tecnologias para tornar a assistência mais segura e eficiente.

 

Mas existe um princípio que jamais deve mudar: a medicina continua sendo uma atividade essencialmente humana. A tecnologia pode apoiar decisões, mas nunca substituirá a escuta, a empatia e a relação de confiança entre médico e paciente. A melhor maneira de cuidar de um ser humano continuará sendo agir como ser humano.

 

RSC – Como o investimento no fator humano e a atenção aos detalhes se convertem em resultados sustentáveis na saúde?

 

Dr. Elias Leite: Se existe algo em comum entre organizações que alcançam resultados consistentes, é uma cultura organizacional forte. Muito do que aprendi sobre liderança veio dos ensinamentos da Disney, especialmente para instituições cuja missão é cuidar de pessoas.

 

Costumo dizer que a cultura não é parte do jogo; a cultura é o jogo. Cabe ao líder definir valores claros, formar equipes alinhadas, desenvolver continuamente essas pessoas e, sobretudo, ser o maior exemplo da cultura que deseja construir.

 

Qualidade significa superar expectativas, e isso só acontece quando existe atenção genuína aos detalhes.

 

Mas há um princípio que considero fundamental: o encantamento do cliente externo é consequência direta do encantamento do cliente interno. Quando colaboradores se sentem valorizados, cuidam melhor dos pacientes. E esse é o caminho mais consistente para construir resultados sustentáveis.

 

RSC – Como clínicas e profissionais de saúde devem se posicionar diante da consolidação de grandes grupos e da nova concorrência no mercado?

 

Dr. Elias Leite: O mercado tornou-se muito mais competitivo. O número de profissionais aumentou, grandes grupos se consolidaram e o paciente passou a ter muito mais opções de escolha.

 

Costumo lembrar uma frase atribuída a Henry Ford: “O carro pode ser de qualquer cor, desde que seja preto.” Naquela época, o consumidor se adaptava ao produto. Hoje acontece exatamente o contrário.

 

Competência técnica é requisito. O verdadeiro diferencial está na experiência que o paciente vive durante toda a sua jornada: acolhimento, comunicação, agilidade, atenção e qualidade da assistência.

 

Vivemos a economia da experiência. Quem compreender essa mudança estará mais preparado para conquistar confiança, fortalecer sua reputação e crescer de forma sustentável.

 

RSC – Quais competências de gestão e negócios são indispensáveis para o médico que deseja empreender na saúde?

 

Dr. Elias Leite: A primeira delas é ter clareza sobre onde deseja chegar. Um bom planejamento estratégico serve como guia, especialmente nos momentos de maior dificuldade.

 

O segundo pilar é a gestão financeira. O médico precisa compreender a viabilidade do negócio, acompanhar o fluxo de caixa e tomar decisões conscientes sobre investimentos. Gosto de uma frase que resume bem essa ideia: “O lucro é o alimento da empresa; o caixa é o ar.” Uma empresa pode suportar algum tempo com pouco lucro, mas dificilmente sobrevive sem caixa.

 

O terceiro pilar são as pessoas. Cercar-se de profissionais tecnicamente competentes e alinhados aos valores da organização não é apenas uma questão de liderança; é uma estratégia que gera resultados sustentáveis.

 

RSC – Como incorporar a inteligência artificial sem perder a essência da medicina?

 

Dr. Elias Leite: A inteligência artificial deve servir ao médico, nunca substituí-lo. Negar sua importância seria como negar, no passado, a chegada do computador ou da internet.

 

Ela amplia a capacidade de diagnóstico, torna processos mais eficientes e pode contribuir para reduzir custos e ampliar o acesso à saúde. Mas a responsabilidade pela decisão continua sendo do profissional.

 

O cuidado, a empatia e a confiança não podem ser delegados a uma máquina. O risco não é a inteligência artificial substituir o cuidado; é nós permitirmos que ela nos faça esquecer da importância dele. Quando utilizada com responsabilidade e senso crítico, a tecnologia fortalece a medicina sem comprometer sua essência.

 

RSC – Qual é o segredo para manter alta performance em tantas frentes de atuação?

 

Dr. Elias Leite: Tudo começa pelos valores. Há pouco mais de dez anos tomei uma decisão que mudou minha vida: passei a fazer apenas aquilo em que realmente acredito e que esteja alinhado ao meu propósito.

 

Também aprendi que alta performance não significa fazer tudo, mas fazer as escolhas certas. Minha família ocupa um lugar central nessa organização, e cuidar da saúde física, emocional e espiritual faz parte da minha rotina. A atividade física, especialmente o jiu-jítsu, me ajuda a manter esse equilíbrio.

 

Ao deixar a prática clínica para me dedicar integralmente à gestão, costumo dizer que deixei de ser médico de ouvido, nariz e garganta para me tornar médico de pessoas e de empresas. Essa escolha me permitiu direcionar minha energia para aquilo em que acredito e onde sinto que posso gerar mais valor.

 

Talvez o maior aprendizado tenha sido desenvolver a capacidade de dizer “não”. Quando aprendemos a recusar aquilo que não faz sentido, conseguimos dedicar tempo e energia ao que realmente importa. No fim das contas, liderança é fazer escolhas coerentes com os valores que orientam nossa vida.

 

Leia Mais: https://revistasaudeceara.com.br/dr-flavio-ibiapina-unimed-fortaleza/

Dr. Elias Leite palestrante e gestor em saúde em entrevista sobre liderança para a Revista Saúde Ceará
Dr. Elias Leite. CRM: 7397 / RQE: 2626 - @eliasbezerraleite

2 thoughts on “Liderar é cuidar de pessoas”

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Dra. Christiane Leitão primeira mulher presidente da OAB Ceara em entrevista para a Revista Saúde Ceará Previous post A Força do Pioneirismo
Dr. Flávio Ibiapina presidente da Unimed Fortaleza em entrevista para a Revista Saúde Ceará Next post Preparar a Unimed Fortaleza para o futuro da saúde