
Entre Batimentos: Reflexões de quem escuta corações há décadas
Nesta coluna, o Dr. Ronald Teles compartilha sua experiência como cardiologista e observador da vida. Ele traduz em palavras o que muitas vezes só o silêncio e o ritmo do coração nos ensinam.
O Ritmo da Vida — Uma reflexão sobre como cada batimento carrega aprendizado, pausa e a atenção necessária para ouvir não só os corações, mas também a vida ao nosso redor.
O espaço e o tempo são um continuum onde está inserido o ser mais sofisticado, inteligente, arguto, intrigante e dito “racional” do mundo, chamado homem. Possui o organismo mais completo e complexo, dotado de vários sistemas integrados, e um cérebro com 100 bilhões de neurônios, equivalente a muitas galáxias, que opera por meio da intimidade neuronal, com sinalizações químicas de neuromediadores nos “cânions” sinápticos.
Este sistema nervoso central, utilizado em torno de 10% de suas potencialidades, equipou mentes como a de Leonardo da Vinci, que, incrivelmente, tinha estudos equivalentes ao “ginasial” [ábaco], sendo a segunda biografia mais escrita depois da de Cristo Jesus. Com 1,90 m de altura, olhos azuis, ambidestro, escrevia da direita para a esquerda e de “cabeça para baixo”.
Dizem que sua visão era retrovisiva e tridimensional — achados incríveis, como suas intuições, descobertas e invenções até proféticas! Inventor, escultor, pintor, cientista, matemático, engenheiro militar, sanitarista e detentor de tantos outros predicados, notabilizou se na pintura com a “Mona Lisa”, a perfeição feminina com seu enigmático sorriso, e o afresco “A Última Ceia”. Teve vida pessoal conturbada, com vários amantes, e faleceu na França, aos 67 anos, vitimado por uma isquemia cerebral, na corte de Francisco I.
Outro exemplo de virtude repousa sobre nosso Dom Pedro II, um dos maiores brasileiros de todos os tempos, deixado no Brasil aos cinco anos, tutoriado por José Bonifácio, por uma dama da sociedade e por um negro alforriado, seu companheiro por toda a vida. Intelectual, poliglota, grande funcionário público, respeitado internacionalmente, comunicava-se com figuras como Charles Darwin e com toda a comunidade científica e cultural da época.
Vitorioso na Guerra do Paraguai, cavalgava à beira do front, sem sofrer agressões por seu grande respeito. Casado com a imperatriz Dona Teresa Cristina, pai da princesa Isabel, que orgulhosamente aboliu a escravidão em nossa terra. Faleceu na França, com um quinhão de terra de cada estado brasileiro em seu caixão, vitimado por uma pneumonia em seu exílio, aos 66 anos.
A antítese da virtude seria representada por Stalin, Mao Tsé-Tung, Hitler, Mussolini, pelos “carniceiros dos Bálcãs”, por Idi Amin Dada, responsáveis por milhões de mortos, e, modernamente, por aqueles que matam comandando de dentro de seus gabinetes, vestidos com caríssimos ternos, vaidosos e onipotentes, no sacrifício de crianças, inocentes, humildes e enganados por seus propósitos escusos — sangue inocente sem agravos de consciência, característica da
psicopatia intrínseca de seus corações abjetos.
Hoje também vivemos a revolução da Inteligência Artificial, certamente — e provavelmente — mais importante que a Industrial, pelo alcance imediato e por ser a informação um bem de precioso valor. Supercomputadores quânticos, com memória incomum, fornecem poder inimaginável a cérebros inundados de dopamina, que tendenciosamente causa desinteresse pelas relações pessoais e um empoderamento digital, acoplado até mesmo às criptomoedas de valor astronômico e fantasioso. O toque, o beijo, o diálogo, o abraço e a contemplação estão perdendo valor diante
do virtual; a raça humana desinteressa-se em procriar, pois o “sexo na internet” é fácil e asséptico; os países
envelhecem à míngua do “amor a dois”.
Nossa “Casa Comum”, nosso planeta Terra, como disse nosso maravilhoso Papa Francisco em uma de suas lindas encíclicas, sufoca pela matriz energética baseada no carbono e perpetuada pelas grandes potências.
O clima revoltoso destrói cidades inteiras com fenômenos extremos; as florestas são derrubadas impiedosamente; a água é mal utilizada e poluída indiscriminadamente; a exploração mineral perpetua a poluição; a fome e a insegurança alimentar arrebatam 8 milhões de vidas por ano; as democracias são frágeis; os poderes, hipertrofiados e assimétricos; as decisões políticas são pessoais e não contemplam o desejo de todos, agindo maquiavelicamente em seus objetivos; as organizações criminosas e cartéis estabelecem territórios e poder incomum; a violência assola
inclementemente a sociedade.
O ser humano, desalentado, tem em seu coração derramado um cálice de amargura e tristeza, olha aos céus e vislumbra seu Apocalipse, aguarda a misericórdia divina e pede paz ao ritmo da vida.
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